Os dados acerca da origem e fundação desta empresa aparecem bem resumidos no livro de 1992 editado pelo Museu de Alcobaça – Cerâmica de Alcobaça, Duas Gerações – onde para além desta empresa são ainda retratadas a “Fábrica de José dos Reis”, a “Fábrica de Manuel Ferreira de Bernarda”, a “Olaria de Albobaça, Lda.”, Raúl da Bernarda” e “Elias & Paiva, Lda.” bem como fotos da louça de cada uma das fábricas.
A seguir transcrevo o texto da Vestal:
“A “Vestal” – ou “Vistal”, como também era denominada nos seus primeiros anos – foi fundada em Fevereiro de 1947 por António Branco, Joaquim Batista Branco, Veríssimo de Almeida e Acácio Bizarro.
A sua primeira fornada teve lugar em 11 de Julho do mesmo ano. Nessa data, eram pintores Leopoldo Machado, Noel Costa, Augusto Moreira, Joaquim Dias Marques e Mário Silva; Carlos Fernandes era oleiro rodista; Acácio Bizarro, o forneiro; Veríssimo de Almeida era fornista; o quador de barro era Manuel Clementino; eram aprendizes José Coelho e António Amado – onze pessoas, no início.
A sua produção destinava-se essencialmente ao mercado local e Lisboa. Entretanto, em 1948, a quota de Joaquim Batista Branco foi comprada por António Henriques Real. Uma vez que o novo sócio possuía já uma empresa de distribuição sediada na capital, a “Vestal” atingiu assim novos horizontes. Com efeito, após a I Feira das Indústrias, a fábrica projectou-se no mercado externo, tendo sido a Grã-Bretanha o primeiro foco. Até 1960, a “Vestal” desenvolveu-se atingindo cerca de cento e cinquenta funcionários.
As matérias primas utilizadas eram o barro dos Capuchos, chumbo proveniente da sucata, estanho de Belmonte e tintas importadas de Inglaterra e da Alemanha. A sua produção consistia em pratos de parede, jarras, fruteiras, bengaleiros, castiçais, galheteiros, entre outras variadíssimas peças. Além das decorações populares características desta louça, em que as flores são elemento dominante, a “Vestal” introduziu também temas históricos, pintados em talhas e pratos – desde efemérides como a Restauração de 1640 ou a Tomada de Lisboa aos Mouros. Outros motivos de sabor erudito figuram em algumas peças de faiança daquela fábrica: sonetos de Camões, poemas de Guerra Junqueiro e João de Deus, figuras como Vasco da Gama, António de Oliveira Salazar ou Chopin, foram retratados, tal como alguns pintores e seus quadros – Goya, Da Vinci. Também a visita da Rainha Isabel II de Inglaterra a Alcobaça, em 20 de Fevereiro de 1957 levou à elaboração de uma interessante talha. Todos estes motivos foram introduzidos por um funcionário que foi admitido na empresa em 1952 – Hélder Lopes – que veio a tornar-se sócio da “Vestal” em 1962.
Pela “Vestal” passaram destacados pintores, além dos que estavam na data da fundação: Almeida Ribeiro, António José, Luís Cipriano da Silva, Luís Ferreira da Silva e Joaquim Pereira Assunção (conhecido por Marcos).
Tal como a “Olaria de Alcobaça”, também a “Vestal” fez imitações da louça antiga do Juncal, bem como dos pratos conhecidos por “aranhões”. Nos dias de hoje ainda a “Vestal” continua a fabricar a louça típica de Alcobaça. No entanto, em 1968, os seus antigos fornos artesanais foram substituídos por outros eléctricos, que mecanizaram e aumentaram a produção – mas que tiraram de vez a cor genuína da louça regional.”
in “Cerâmica de Alcobaça, Duas Gerações”, 1992, ed. Museu de Alcobaça
texto: Jorge A. F. Ferreira Sampaio e Raul J. Silveira da Bernarda
Aqui estão algumas fotos que consegui hoje, as duas primeiras do início da laboração em 1965, numa “linha de produção” ainda em condições muito improvisadas e as seguintes do habitual lanche de férias que os operários realizavam no último dia de trabalho do mês de Julho antes da partida para férias. Eram ocasiões muito improvisadas onde cada um levava o seu doce ou salgado e, depois de unidas as bancadas de trabalho, ali mesmo entre formas e tabuleiros, todos se uniam em ambiente de camaradagem.
Entre os aguaceiros e os períodos de sol, lá consegui tirar esta foto do que resta do edifício sede.
Desde que encerrou definitivamente em Julho de 2003, estas paredes lá vão dando sombra aqueles que, depois do almoço, se juntam no banquinho do passeio a fazer contas à vida, recordar os velhos tempos e dizer adeus a quem passa; e as andorinhas lá vão insistindo a fazer os ninhos no beiral, indiferentes ao que se passa lá em baixo. Curioso é que se outrora esta fábrica contribuía com os desperdícios de barro para a construção dos ninhos, quatro anos volvidos e sem produção fabril, as mesmas aves ou descendentes delas ajudam a manter viva a memória com o mesmo barro bem colado lá em cima.